top of page

A AUSTRÁLIA ABRE UMA NOVA RODADA PARA BATERIAS

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Como funciona o CIS — e o que o Brasil pode aprender



A Austrália está realizando uma nova rodada competitiva para contratar 4 GW e 16 GWh de capacidade limpa despachável no National Electricity Market — NEM. A Rodada 10 do Capacity Investment Scheme — CIS abriu em 23 de junho de 2026, recebe propostas até 18 de agosto e pode ser a última contratação de armazenamento do programa. Como o país chegou a esse ponto enquanto o Brasil ainda prepara seu primeiro leilão específico de baterias?


O LEILÃO ATUAL É O RESULTADO DE UMA TRAJETÓRIA


A Rodada 10 não surgiu como uma medida isolada. Ela é o ponto mais recente de uma política construída ao longo de quase uma década, combinando aprendizado operacional, mudanças de mercado, planejamento da expansão e contratos capazes de reduzir o risco dos investimentos.


A origem dessa trajetória costuma ser associada ao apagão de 28 de setembro de 2016, quando uma tempestade severa provocou danos na transmissão (queda de 33 torres) e uma sequência de desligamentos na Austrália do Sul. O estado se separou do restante do NEM1 e cerca de 850 mil consumidores ficaram sem energia. O evento não foi simplesmente “causado pelas renováveis”, mas expôs a necessidade de respostas mais rápidas, melhores modelos e novos recursos para sustentar a frequência e a estabilidade da rede.


Você sabia? O Brasil também viveu uma perturbação de grande porte em 15 de agosto de 2023. Foram interrompidos 22.547 MW, cerca de 31% da carga atendida, com impactos em 25 estados e no Distrito Federal. As causas foram diferentes, mas os dois episódios mostram como uma falha pode se espalhar rapidamente em sistemas cada vez mais complexos. 


HORNSDALE MOSTROU QUE UMA BATERIA PODIA FAZER MUITO MAIS


Em 2017, o governo da Austrália do Sul selecionou a Tesla e a Neoen para implantar a Hornsdale Power Reserve. A primeira etapa tinha 100 MW e 129 MWh e entrou em operação no fim daquele ano. Em 2020, o projeto foi ampliado para 150 MW e cerca de 194 MWh.


Hornsdale ficou conhecida como a “grande bateria” ligada a um parque eólico, mas seu valor não estava apenas em armazenar energia. O sistema passou a atuar no mercado de energia, no controle de frequência, na resposta a contingências e em esquemas de proteção da rede. Mais tarde, recebeu controles grid-forming2 capazes de oferecer resposta inercial sintética e apoiar a estabilidade do sistema.


O projeto ajudou a demonstrar duas vantagens das baterias: a velocidade de resposta, medida em frações de segundo, e a possibilidade de o mesmo ativo prestar diferentes serviços. Essa experiência também evidenciou um ponto essencial: a tecnologia pode ser multifuncional, mas só consegue gerar valor quando o mercado e a regulação reconhecem essas funções.


Você sabia? A famosa promessa dos “100 dias” nasceu de uma conversa pública nas redes sociais. Elon Musk afirmou que a Tesla colocaria a bateria em operação em até 100 dias após a assinatura do contrato — ou o projeto seria gratuito. O desafio virou uma demonstração mundial da rapidez de implantação do armazenamento.


Antes do CIS, o mercado começou a valorizar a rapidez


A Austrália não esperou resolver todos os temas regulatórios antes de contratar novos projetos. Mas, quando o CIS ganhou escala, o NEM já vinha sendo adaptado para a entrada das baterias. O preço da energia passou a ser liquidado a cada cinco minutos3 em 2021, oferecendo um sinal mais adequado aos recursos rápidos. Em 2023, entrou em operação o mercado de resposta de frequência em até dois segundos. Em 2024, uma nova categoria de registro simplificou a participação de baterias e projetos híbridos como carga e geração.


Isso não significa que a regulação esteja concluída. Hornsdale, por exemplo, demonstrou serviços que ainda não eram plenamente reconhecidos pelas regras de mercado. A diferença é que o país passou a ajustar a regulação, a operação e as contratações de forma coordenada, aprendendo com os projetos já instalados.


Como funciona o CIS


O Capacity Investment Scheme é uma política federal de garantia de receita para acelerar investimentos em geração renovável e capacidade limpa despachável, principalmente baterias. O objetivo atual é viabilizar 40 GW até 2030: 26 GW de nova geração renovável e 14 GW de capacidade despachável.


Os projetos competem em rodadas realizadas no NEM e no Wholesale Electricity Market — WEM, da Austrália Ocidental. Existem certames separados para geração e para capacidade despachável. Na avaliação, não importa apenas o menor preço. São considerados os benefícios para a confiabilidade, a capacidade real de entrega, a solidez do proponente e os compromissos com comunidades, trabalhadores e povos originários.


O contrato, chamado Capacity Investment Scheme Agreement — CISA, funciona como uma rede de proteção para a receita do empreendimento. O projeto continua vendendo energia e serviços no mercado. Se sua receita ficar abaixo do piso acordado, o governo cobre parte da diferença. Se superar o teto, uma parcela do ganho retorna ao governo. O apoio pode durar até 15 anos, mas somente começa depois que o projeto entra em operação e passa a gerar receita.


Esse desenho reduz o risco necessário para financiar os projetos sem transformar a bateria em um ativo dependente de uma receita fixa. O empreendedor continua incentivado a operar bem, buscar contratos privados e participar dos mercados de energia e serviços ancilares.


Rodada 10: a contratação que está acontecendo agora


A Rodada 10 busca contratar 4 GW e 16 GWh de capacidade despachável no NEM. As propostas foram abertas em 23 de junho de 2026, encerram-se em 18 de agosto e o anúncio dos vencedores está previsto, de forma indicativa, para dezembro. O governo informa que esta provavelmente será a última rodada despachável do CIS; uma nova contratação só deverá ocorrer se o volume restante não for preenchido.


O certame foi aberto um dia antes da divulgação dos vencedores da Rodada 8. Nessa rodada, 73 propostas somaram 76,4 GWh para uma meta de 16 GWh. Foram selecionados 15 projetos, todos de armazenamento, que totalizam 4,2 GW e 16,1 GWh. Ou seja: a capacidade oferecida pelos investidores chegou a quase cinco vezes o volume pretendido.


A forte competição permitiu ao governo ampliar a meta do programa. O objetivo original de capacidade despachável era 9 GW; em julho de 2025, passou para 14 GW. A Rodada 10 busca completar essa meta ampliada, não apenas repetir um leilão anterior.


O próprio procedimento também mudou. As primeiras rodadas separavam a proposta técnica da proposta financeira. A partir das Rodadas 5 e 6, tudo passou a ser entregue em uma única etapa, com expectativa de reduzir a duração do processo de aproximadamente nove para seis meses. Os novos certames também passaram a dar mais peso à capacidade de entrega e a prever uma lista de reserva para substituir projetos que não cheguem à contratação.


O que essa experiência ensina ao Brasil


A principal lição da experiência australiana para o Brasil é a importância de construir uma trajetória consistente para o armazenamento, combinando regulação clara, planejamento sistêmico, critérios técnicos de conexão, mecanismos competitivos de contratação e sinais econômicos capazes de reduzir risco e acelerar investimento. A Austrália não chegou ao CIS por acaso: o programa é resultado de aprendizado acumulado, amadurecimento regulatório e coordenação entre confiabilidade, transição energética e expansão do sistema.


O Brasil ainda está no início dessa trajetória, mas já deixou de estar apenas na fase conceitual. A regulamentação dos sistemas de armazenamento pela ANEEL e a realização do LRCAP de 2026 mostram que o país começou, enfim, a transformar o tema em política pública concreta. O desafio agora não é apenas realizar o primeiro leilão, mas garantir continuidade, previsibilidade e aperfeiçoamento institucional para que o armazenamento seja tratado como recurso estratégico para confiabilidade, flexibilidade operativa e integração de renováveis. 


e a experiência australiana ensina algo, é que baterias não prosperam apenas porque a tecnologia amadureceu, mas porque o setor elétrico cria as condições para que elas gerem valor ao sistema. No caso brasileiro, o verdadeiro teste começará depois do primeiro certame: será a capacidade de consolidar regras estáveis, coordenar acesso e conexão, endereçar a alocação eficiente de custos e permitir que o armazenamento evolua de solução pontual para elemento estrutural da expansão e da operação do SIN.


CURIOSIDADES SOBRE O CIS


  • A meta aumentou: a capacidade despachável prevista passou de 9 GW para 14 GW.

  • A Rodada 8 foi quase cinco vezes maior que a demanda: 76,4 GWh foram ofertados para uma meta de 16 GWh.

  • As usinas a carvão não disputam o CIS: o programa contrata recursos limpos para ajudar a preencher o espaço deixado por sua retirada.

  • O gás continua no planejamento: a AEMO prevê renováveis firmadas por armazenamento e respaldadas por gás em períodos mais longos ou excepcionais.

  • A Rodada 10 pode encerrar o ciclo despachável: outra rodada só será necessária se a meta ampliada não for atingida.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page