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LEILÕES DE BATERIAS NA ARGENTINA MOSTRAM A COMPETIVIDADE DE BESS PARA SEGURANÇA ENERGÉTICA NA AMÉRICA LATINA

  • 17 de jul.
  • 6 min de leitura

Em 2026 a Argentina realizou o seu segundo Leilão para Sistemas de Armazenamento de Energia, depois do sucesso do Leilão de 2025. O primeiro certame ocorreu em resposta aos riscos de abastecimento e às limitações da rede elétrica da região metropolitana de Buenos Aires, chamado de AlmaGBA. Quanto ao cronograma de implantação, os projetos poderão iniciar a operação comercial individualmente, sendo 1º de janeiro de 2027 a data-objetivo e 31 de dezembro de 2028 o prazo máximo para habilitação da totalidade dos equipamentos. Os contratos têm prazo de fornecimento até 2041 ou 15 anos.


O segundo certame, denominado AlmaSADI, foi desenhado para resolver o gargalo de geração e integração de renováveis no SADI – Sistema Argentino de Interconexão. A iniciativa foi direcionada ao fortalecimento da confiabilidade do sistema, à redução das interrupções de fornecimento, ao atendimento dos períodos de maior demanda e à prestação de serviços de potência, reservas operativas e reservas de curto prazo.


Os projetos vencedores foram distribuídos por sete regiões: Província de Buenos Aires, NOA, NEA Chaco–Formosa, NEA Misiones–Corrientes, Litoral Entre Ríos, Litoral Santa Fe e Pampa. Para esses empreendimentos, também foi adotada a data-objetivo de 1º de janeiro de 2027, mas o prazo máximo para entrada em operação foi estendido até 31 de dezembro de 2029. O certame admite habilitações parciais e prevê incentivos econômicos para projetos que anteciparem sua entrada em operação.


Assim, a capacidade contratada nos dois leilões deverá ser incorporada gradualmente ao sistema argentino entre 2027 e 2029.

Estrutura e resultados do AlmaGBA

O AlmaGBA estabeleceu preço máximo de US$ 15.000/MW, potência mínima de 10 MW por projeto e potência máxima limitada à necessidade definida para cada local de conexão ou, conforme o caso, a 150 MW. O preço médio ponderado ao final do leilão foi de US$ 136.046,23/MW.ano (R$ 697.900,59/MW.ano, à R$ 5,13/US$).

Além da remuneração contratual pela disponibilidade de potência, o certame previa o pagamento de US$ 10/MWh pela energia fornecida pelo sistema de armazenamento. Em contrapartida, a central deveria arcar com o chamado Cargo por Consumo, correspondente à diferença entre a energia demandada durante a carga e a energia posteriormente fornecida na descarga, incluindo as perdas do ciclo e os consumos auxiliares. Essa diferença seria valorada a US$ 20/MWh. Assim, caso o sistema demandasse 100 MWh para carga e fornecesse 90 MWh na descarga, o agente pagaria o encargo incidente sobre os 10 MWh de diferença, totalizando US$ 200. Portanto, a eficiência alvo não foi definida, mas é tratada como um sinal econômico ao empreendimento.

Os projetos também deveriam assegurar a disponibilização da potência contratada por, no mínimo, quatro horas consecutivas. Adicionalmente, o edital permitia que as centrais recebessem receitas pela prestação de outros serviços no MEM — Mercado Elétrico Atacadista, independentemente da remuneração prevista no contrato e conforme a regulamentação vigente.

O AlmaGBA estabeleceu inicialmente uma potência-objetivo de 500 MW em sistemas de armazenamento. O processo recebeu 27 projetos apresentados por 15 empresas, totalizando 1.347 MW de capacidade ofertada. A elevada participação permitiu a adjudicação inicial de 667 MW, volume aproximadamente 33% superior ao objetivo originalmente estabelecido.

Estrutura e resultados do AlmaSADI

O AlmaSADI estabeleceu preço máximo de US$ 12.500/MW-mês, reduzindo em aproximadamente 16,7% o teto adotado no AlmaGBA. A potência mínima permaneceu em 10 MW por projeto, enquanto a potência máxima seria o menor valor entre 150 MW e o limite de capacidade estabelecido para cada nó de conexão. O certame definiu uma potência-objetivo total de 700 MW, além de limites indicativos de contratação por região do sistema elétrico.

O certame também introduziu um mecanismo de incentivo aplicável às propostas inferiores ao preço médio ponderado das ofertas selecionadas. Para esses projetos, foi acrescentado ao valor originalmente ofertado um montante equivalente a 25% da diferença entre a oferta e o preço médio ponderado. Assim, o valor de adjudicação passou a corresponder à soma entre o Valor Ofertado e o Valor Incentivo:

Valor Incentivo = 25% × (preço médio ponderado − Valor Ofertado) Valor de Adjudicação = Valor Ofertado + Valor Incentivo

O mecanismo elevava parcialmente a remuneração das propostas mais baixas, sem equipará-las integralmente ao preço médio. No resultado do AlmaSADI, o preço médio ponderado utilizado como referência foi de US$ 8.338,54/MW-mês. Dessa forma, a menor oferta selecionada, de aproximadamente US$ 7.397/MW-mês, recebeu incentivo de cerca de US$ 235/MW-mês, resultando em valor final de adjudicação de US$ 7.632/MW-mês (R$ 469.825,92 reais por ano, à cotação de R$ 5,13/US$), redução de 32,68% sobre o leilão anterior.

O AlmaSADI também prevê o pagamento de US$ 10/MWh pela energia efetivamente fornecida pela central de armazenamento. Esse valor será aplicado até 2036; a partir de 2037, a energia passará a ser remunerada pelo preço do mercado spot. Da mesma maneira acontece com o Cargo de consumo que até 2036 é valorada em US$ 20/MWh, passando a seguir o preço spot a partir de 2037. 

Os requisitos operacionais também foram detalhados no AlmaSADI. Os projetos deverão disponibilizar a potência contratada por, no mínimo, quatro horas consecutivas. O ciclo de carga deverá ser realizado normalmente em até seis horas, embora a central deva possuir capacidade técnica para estendê-lo por até oito horas, quando necessário. A operação será definida pela CAMMESA, na condição de organismo responsável pelo despacho, sendo exigíveis, no máximo, 180 ciclos completos de carga e descarga por ano. 

O AlmaSADI também introduziu remuneração específica pela prestação do serviço de Regulação Primária de Frequência — RPF. As centrais deverão disponibilizar para esse serviço pelo menos 30% da potência contratada, recebendo US$ 5/MWh pela energia regulante fornecida. A partir de 2037, essa remuneração também passará a observar os valores do mercado spot.

O certame estabeleceu inicialmente uma potência-objetivo de 700 MW. O processo recebeu 235 ofertas apresentadas por 37 empresas, totalizando 8.338 MW, volume equivalente a quase 12 vezes a capacidade pretendida. Ao final, foram adjudicados 700,5 MW, distribuídos entre 20 projetos de cinco empresas e localizados em sete regiões do país.

Preços e estrutura de remuneração

Os preços dos projetos vencedores apresentaram redução significativa entre os dois certames. O preço máximo de adjudicação diminuiu de US$ 15.000/MW-mês, no AlmaGBA, para US$ 12.500/MW-mês, no AlmaSADI, redução de aproximadamente 16,7%. A queda observada nos preços efetivamente contratados, contudo, foi ainda mais expressiva.

No AlmaGBA, considerando os 713 MW contratados, o preço médio ponderado foi de aproximadamente US$ 11.682/MW-mês. No AlmaSADI, o preço médio ponderado final dos 700,5 MW adjudicados foi de US$ 8.427/MW-mês, o que representa redução de cerca de 28% entre os dois certames.


Antes da aplicação do mecanismo de incentivo previsto no AlmaSADI, o preço médio ponderado das ofertas selecionadas era de US$ 8.338,54/MW-mês. Com a incorporação dos incentivos concedidos às propostas inferiores a essa referência, o preço médio ponderado final passou para US$ 8.427/MW-mês. A menor oferta selecionada, de aproximadamente US$ 7.397/MW-mês, resultou em valor final de adjudicação de US$ 7.632/MW-mês.


 

AlmaGBA 

AlmaSADI 

Preço máximo do edital 

US$ 15.000/MW-mês 

US$ 12.500/MW-mês 

Menor preço adjudicado 

US$ 10.161/MW-mês 

US$ 7.632/MW-mês 

Maior preço adjudicado 

US$ 12.815/MW-mês 

US$ 9.705/MW-mês 

Preço médio ponderado final 

US$ 11.682/MW-mês 

US$ 8.427/MW-mês 

Potência final contratada 

713 MW 

700,5 MW 


Os resultados indicam um processo de rápida maturação do mercado argentino de armazenamento. Além da redução internacional dos custos dos sistemas de baterias, a queda dos preços pode estar associada ao aprendizado proporcionado pelo primeiro certame, à maior previsibilidade do modelo contratual e ao aumento expressivo da concorrência.

Enquanto o AlmaGBA recebeu propostas equivalentes a aproximadamente 2,7 vezes a capacidade inicialmente pretendida, o volume ofertado no AlmaSADI correspondeu a quase 12 vezes sua potência-objeto, consolidando uma rápida curva de aprendizado.

Avaliação da ABSAE


Ao analisar os certames da Argentina, observa-se uma evolução relevante entre os editais, com redução do preço-teto e introdução de incentivos aos agentes. Esses fatores podem ter contribuído para o aumento da competitividade entre um certame e outro. A experiência também indica que, com regras claras, prazo contratual adequado e remuneração compatível, os projetos de armazenamento tendem a agregar confiabilidade e flexibilidade aos sistemas elétricos.

Para a ABSAE, o Brasil vive um momento decisivo para incorporar esses aprendizados ao seu modelo de contratação. Isso exige previsibilidade dos certames, clareza sobre as obrigações operacionais, adequada identificação das necessidades locacionais e mecanismos de remuneração compatíveis com os serviços prestados pelos sistemas de armazenamento.

A experiência argentina não deve ser reproduzida automaticamente, diante das diferenças entre os dois mercados. Ainda assim, ela reforça que o armazenamento pode ser contratado de forma estruturada como recurso de confiabilidade e flexibilidade. No Brasil, o desenvolvimento desse mercado dependerá de regras claras, adequada alocação de riscos e remuneração compatível com os múltiplos serviços prestados pelos sistemas de armazenamento.


CURIOSIDADE
Os nomes dos leilões fazem referência à abrangência geográfica de cada contratação. No AlmaGBA, a expressão “GBA” corresponde à região da Grande Buenos Aires, onde estavam localizados os pontos de conexão dos projetos do primeiro certame. Já o AlmaSADI ampliou a contratação para diferentes regiões do Sistema Argentino de Interconexão — SADI. 
O modelo argentino além da remuneração mensal pela disponibilidade de potência, as centrais podem receber pagamentos pela energia efetivamente fornecida e pela prestação de serviços ao sistema elétrico, como a Regulação Primária de Frequência. 
O segundo certame foi lançado pouco mais de um ano após a publicação do AlmaGBA, evidenciando a rápida evolução da política argentina de contratação de sistemas de armazenamento. 

 
 
 

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