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Um portfólio de potência mais seguro e eficiente passa pelos Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias

há 41 minutos
5 min de leitura

ABSAE – Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia 



O Ministério de Minas e Energia deu um passo importante ao publicar o cronograma de leilões até 2029. A portaria dá previsibilidade ao setor e sinaliza investimentos para toda a cadeia produtiva. Ela também permite que Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE), em baterias ou em usinas reversíveis, sejam considerados nos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) ao lado das fontes de geração. A escolha é acertada: ao colocar em disputa todas as soluções capazes de atender às necessidades do sistema, o planejamento passa a buscar a segurança energética ao menor custo para o consumidor. 


O avanço, contudo, provocou reação de representantes do segmento termelétrico. Segundo alguns, baterias químicas "não resolvem o problema de estabilidade de tensão e de frequência" e apresentam "limitação forte de corrente de curto-circuito". A primeira afirmação não se sustenta diante dos requisitos técnicos já estabelecidos pelo ONS e pela EPE. A segunda simplifica uma questão técnica de natureza essencialmente local, que o ONS já analisa com critério. Nenhuma das duas, portanto, justifica a reserva de mercado para uma única fonte.


1. Sobre a estabilidade de tensão e frequência 


Os sistemas de armazenamento de energia que participarão do LRCAP deverão ser dotados da moderna tecnologia grid forming em seus inversores das baterias, sendo capazes de auxiliar decisivamente no controle da rede elétrica.


Por esses requisitos, os SAE que serão contratados deverão operar como formadores de rede (grid forming). Nesse modo de controle, o inversor estabelece a própria referência de tensão e frequência e é visto pelo sistema como uma fonte de tensão controlada em série com uma impedância. Diante de um distúrbio, ele não se limita a acompanhar a rede. Ele sustenta a tensão e o ângulo e contribui para amortecer a perturbação, sem depender de um sistema previamente estável. 


Em resumo: a bateria formadora de rede não depende da estabilidade do sistema. Ela contribui para criá-la.


A Portaria Normativa MME nº 136/2026, que rege os leilões de baterias de dezembro, exige capacidade grid forming, definida em nota técnica conjunta do ONS e da EPE (NT-ONS DPL 0111/2025 / EPE-DEE-NT-095/2025). O documento estabelece, entre outros pontos:


  • sincronismo permanente com o sistema e divisão autônoma de potência ativa e reativa com os demais recursos dinâmicos; 

  • capacidade de geração e absorção de potência reativa e controle contínuo de tensão no ponto de conexão;

  • resposta a saltos de fase e variações de tensão no ponto de conexão em até 16ms;

  • estatismo Q-V e P-f e inércia sintética, com parâmetros ajustáveis pelo ONS;

  • participação na regulação primária de frequência e resposta rápida de frequência, com reação em até 200 ms e resposta em até 1 s;

  • impedância passiva na faixa de 0,1 Hz a 120 Hz, sem introduzir novos modos oscilatórios instáveis nem agravar os existentes, além de capacidade de amortecer oscilações sistêmicas;

  • operação estável e independente em caso de ilhamento e, opção de partida autônoma (black start);


Fica claro, portanto, que os SAE aportam ao sistema atributos de grande valor para a estabilidade. A segurança do sistema vem da combinação de diferentes ferramentas, e os SAEs são hoje uma ferramenta completa e de custo comprovadamente competitivo. Não é correto, assim, que qualquer segmento se apresente como a única solução para todas as necessidades do sistema. Cada tecnologia tem seu papel, e o planejamento deve aproveitar o que cada uma oferece de melhor. 


2. Sobre a corrente de curto-circuito


O nível de curto-circuito é uma grandeza que depende de inúmeras variáveis e, por isso, sua avaliação não deve admitir declarações genéricas e enviesadas.


Primeiramente, a contribuição de curto-circuito de uma usina se limita à sua vizinhança na rede. Nesse aspecto, os SAE, por sua alta densidade energética, ocupam áreas reduzidas e podem ser instalados próximos a subestações existentes, nos pontos onde a rede precisa de suporte. São modulares, o que permite dimensionar cada projeto à necessidade local. 


O leilão já considera o tema: a bonificação locacional do LRCAP utiliza a relação de curto-circuito com múltiplas injeções (MISCR) para direcionar os SAE formadores de rede justamente aos pontos de rede mais fraca, onde sua contribuição é mais valiosa.


Ou seja, a robustez da rede, determinada pela topologia, pelas fontes próximas, pela capacidade dos disjuntores instalados e pela sensibilidade das proteções, é tratada barramento a barramento, por meio de estudos específicos rigorosamente conduzidos pelo ONS. 


3. O que o mundo já faz


  • Reino Unido: foi o primeiro país a incluir a capacidade formadora de rede no seu código de rede (equivalente aos nossos Procedimentos de Rede). O operador NESO contrata inércia e corrente de curto-circuito de baterias e renováveis sem depender de usinas a gás;


  • Austrália: cerca de 74% dos projetos de baterias na fila de conexão do mercado nacional já preveem inversores formadores de rede. Em Nova Gales do Sul, a transmissora Transgrid selecionou até 2 GW de baterias formadoras de rede para garantir robustez ao sistema, com efeito equivalente a 17 compensadores síncronos. O operador AEMO conduz testes de campo para validar a contribuição de corrente de falta para a proteção;


  • Califórnia: nos cinco primeiros meses de 2026, a geração a gás caiu 60% frente ao mesmo período de 2024. A capacidade de baterias subiu 79%, para 16 GW, e a energia descarregada por elas triplicou, concentrada no início da noite, exatamente o horário de ponta, com fortes economias ao consumidor sem abrir mão da segurança;


  • Texas: no recorde histórico de demanda, em 22 de julho, as baterias descarregaram cerca de 12 GW, também um recorde. A participação do gás no atendimento à ponta caiu em relação ao pico anterior.


Onde há competição real pela ponta, as baterias ganham espaço porque entregam a segurança energética ao menor custo.


4. Contratar atributos, ao menor custo


A ABSAE defende que o Brasil contrate atributos de que o sistema precisa, e não tecnologias pré-escolhidas. Os atributos são potência na ponta, duração do atendimento, velocidade de resposta, controle de tensão e frequência, inércia e robustez local de rede. Cada um deve ser especificado com requisitos técnicos claros e verificáveis. Todas as soluções capazes de atendê-los devem ser consideradas no planejamento, sendo selecionada a tecnologia apta com o menor custo efetivo total para o consumidor.


A portaria condiciona cada leilão anual à avaliação de necessidade sistêmica que EPE e ONS devem apresentar até 30 de abril. É nesse diagnóstico que os atributos devem ser definidos, ano a ano. Para necessidades de potência de até cerca de quatro horas, as baterias já são a solução mais barata e eficiente. Para durações maiores, a competição decidirá.


Colocar tecnologias para competir por atributos técnicos não é erro. Erro seria continuar reservando mercado a uma fonte e impor o custo dessa escolha ao consumidor.


ABSAE – Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia 


Fontes:


 
 
 

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